06 Dezembro, 2009

À deriva


Orgulhosamente
navego à deriva na costa sempre distante de mim.
Olho e vislumbro o espaço que dista do porto seguro que anseio alcançar
e
evito pensar na paz que me inunda o ser
Corro
tropeço
ergo-me
saio a correr desalmadamente porque afinal já não quero aportar.
Corro em direcção ao que julgo ser o horizonte
e esbarro com uma liberdade nunca antes experimentada.
Extasiada… sinto a plenitude
que me conforta e preenche
Chego enfim… paro…sou.



Cristina Tomé

31 Outubro, 2009

Sonho



Deitada de bruços, Salomé espreita as estrelas que se amontoam do lado de lá do céu escuro… a voz que a embala parece agora distante e os olhos semi cerrados vincam as pálpebras com um movimento circular que deixa adivinhar a turbulência que se aproxima vinda do interior. Virada para o lado da parede, enroscada sobre si, sente a contracção dos músculos, que de tão retesados fazem lembrar troncos de árvores entrelaçados e fortes. Invade-a um friozinho que não consegue explicar, ainda que tente perceber o que a faz estar tão torcida e pretensamente nervosa. O peso que sente apoderar-se agora de si é mais forte do que há minutos atrás, sente que não deve estar já acordada e o cenário que a envolve apresenta-se com uma coloração inquietante. Olha demoradamente a paisagem e o que observa satisfaz-lhe os sentidos que teimam em permanecer mais acordados do que ela. Subitamente apercebe-se de que todo o meio envolvente se desfaz numa espécie de aguarela onde não se distinguem tons, sente-se estranha, enervada por não saber com que linhas se cose e ainda assim não desiste de avançar e mergulhar naquela imensidão que lhe envolve a visão, o olfacto, a audição… o tacto. Imersa num sonho de que não consegue libertar-se, mas consciente do perigo, caminha assustada ao encontro de um velho casarão ali prostrado há séculos… hesita… entra… e o que a envolve parece distraí-la da realidade há tão pouco tempo vivida. A porta, gasta, entreabre-se ao toque suave de Salomé e o que se segue é… como dizer… quimérico. Corpos abandonam-se à melodia tangível que não se ouve, sente-se…, voltam-se rostos velados à sua passagem como que num convite ao desfrute do ali vivenciado, velas cobrem o chão em castiçais dourados e no ar… um odor que incendeia… inebria…constrangendo a alma que se liberta e esvoaça ao sabor do vento que não corre. Tudo parece estranhamente exacto… os movimentos sucedem-se com uma lentidão que não se compadece com o exercício ali praticado, tudo em redor se prepara para um ritual final que deixa transparecer um mistério que incomoda. Os vultos, pouco nítidos, ocultos por máscaras venezianas, respiram descompassadamente, lançando olhares lascivos aos demais que correspondem com gestos moles e a ambiência, pesada, sente-se como uma aura quente, envolvente, efémera. Salomé, outrora corpo adormecido, sente-se mulher voluptuosa, desfilando na passadeira vermelha que cobre o chão que pisa, envolta na neblina encantatória que a submete a um silêncio quase gótico. Não fala: vê, repara, sente, cheira… sente… sente… sente uma mão leve que resvala pela cintura, contornando-lhe o corpo que desfalece ao toque… sente o orvalho que começa a formar-se dentro de si ansiosa por brotar… sente… mais do que pensa… que aquele ambiente a envolve de forma incompreensível e luta sem forças para resistir ao que deseja. Desiste… deixa-se envolver pela mão que a explora e inadvertidamente mescla-se com o possuidor, entregando-se ao devaneio jamais planeado, jamais sentido. Agora é tarde… a máscara cobre-lhe parte do rosto, mais precisamente os olhos azuis translúcidos, marejados de um intenso fulgor e os gestos, lânguidos, demoram-se em cada movimento plenamente sentido.
A manhã começa a delinear-se e a claridade que inunda o quarto desperta Salomé, corpo-mulher. Como que saída de uma hipnose, corre ao espelho onde vislumbra a noite sentida, marcada pelo batom desacostumado nos lábios.


Cristina Tomé

15 Outubro, 2009

Morte



Batia o sino as seis horas de uma fria e soturna manhã de Dezembro. A paisagem que envolvia a prisão de alta segurança era igual a si mesma, não só descampada porque ao longe se avistavam duas árvores raquíticas assentes numa relva amarelada da geada que naturalmente caia naquele momento. De um lado, uma espécie de guarida amontoava dentro de si entulho com aspecto envelhecido, do outro, uma estrutura em ferro oxidado, testemunha de um qualquer empreendimento nunca acabado. Ao centro, na horizontal, estendia-se o tal edifício penitenciário, caiado de branco sujo, ornamentado com grades em cada uma das janelas que se enfileiravam meticulosamente em cada andar por onde estavam distribuídas. O portão, largo e verde, contrastava com o resto do espaço e abria-se repetidamente para que entrassem e saíssem todos aqueles que asseguravam a pseudo vivência de uns e a sobrevivência de outros: talhantes conduziam as suas carrinhas e descarregavam metades inteiras de porcos ainda a escorrer o pouco sangue que restava, galinhas aos molhos, presas pela cabeça num gancho eram atiradas para dentro do caldeiro sujo que vinha da cozinha; o leiteiro entrava a seguir para depositar os pacotes de leite magro e aguado, seguindo-se o homem da fruta e dos legumes. Magro, escanzelado, mal podia com os caixotes que tirava da carripana com arca frigorífica sua pertença há tanto tempo que nem ele sabia quanto. O pátio era mais para dentro, longe do portão que dava acesso a uma liberdade que tão cedo não sorria à maioria. Comprido e naturalmente estreito, estava dividido em quatro partes desiguais, espelhando os seres que as frequentavam. Na secção designada por A, repleta de velhas máquinas de musculação, podiam vislumbrar-se as bestas de carga que com o suor a cortar o frio sentido largavam um bafo quente que em contacto com o exterior se transformava em fumo esbranquiçado; na secção B um campo de basquete, imperceptivelmente marcado, cujas tabelas, esburacadas e já sem rede, estoicamente se aguentavam em pé para que nelas pudesse, mais uma vez, entrar a bola lançada das mãos negras e ossudas do jogador por imposição do destino que lhe pregou uma partida. A terceira secção, por ordem de ideias a C, era ocupada por umas bancadas construídas para o efeito e ali permaneciam, impávidos e absortos, todos os avessos ao esforço físico. Fumavam, conversavam, jogavam cartas quando o espaço o permitia e urdiam planos de evasão à partida falhados. A última secção era forrada com terra escura onde se semeavam, a cada estação, as respectivas flores. Povoada de bolbos de lírios que brotavam espontaneamente com o frio, começava a adivinhar-se o aroma que encheria o ar nos próximos tempos, suavizando a realidade crua que se sentia mesmo do lado de fora. Trabalhavam a terra para depois se limitarem a uma espera angustiante os sensíveis, quase castos e só hóspedes porque invariavelmente enganados e apanhados numa cilada para a qual não estavam preparados. São agora dezasseis horas e troa o alarme interno que obriga ao recolher obrigatório. Abandonada cada uma das secções, encaminham-se os transeuntes para a porta que os há-de conduzir ao refeitório onde o barulho vai crescendo com urros de bocas cheias que vomitam insultos e olhos raivosos que fixam sem pestanejar alguém que se pretende intimidar. João, António, Francisco e Carla coabitam este espaço e acabada a refeição recolhem à cela que os acolhe, todos os dias, por tempo indefinido. Estranho facto este de uma mulher habitar o que até agora parecia ser um espaço estritamente masculino, mas o que é certo é que ela coabita e partilha dolorosamente este ambiente, sobrevivendo com uma dificuldade estóica de quem não desiste de si. Com o olhar pouco profundo, acastanhado, observa com cuidado tudo o que a rodeia. Sabe que um dos segredos para passar despercebida é não olhar directamente o outro, por isso, anda quase sempre cabisbaixa, sorrindo tenuemente apenas para aqueles com quem mantém uma relação secreta. Num leve piscar de olho, Carla manifesta a seu apetite sexual e no minuto que se segue, roçando-se naquele negro de músculos definidos, sacia, virada contra a parede do vão da escada que dá para a cozinha, a obsessão que a deixa descontrolada quando dela se apodera. Findo o acto, encaminha-se para a cela como se nada tivesse acontecido. O único resquício adivinha-se no brilho do olhar que deixa cair uma lágrima que não chega a rolar até ao queixo onde a barba começa a despontar. Triste vida a de Carla, neutra por assim dizer já que não pertence a nenhuma secção, mas está presa entre as três por três amores exigentes e sedentos. João, secção C, empresário de comércio justo, sensível, pele clara, olhos castanhos que se diluem no cabelo negro. Bipolar, homem de extremos, homem difícil e estranho. Ao entardecer, plantava os lírios com tanta dedicação que as suas mãos ao acariciar a terra provocavam estremecimentos em Raul, companheiro de cela. António raramente aparecia, só nos casos mais críticos deambulava por entre as máquinas da secção A. Rude, fora preso por tráfico de mulheres. Machão típico, daqueles que friamente trata o sexo oposto como aquilo que ele é: mercadoria de segunda, confeccionada para ser usada até que se gaste e se descarte. A sua parca aparição dever-se-á talvez ao facto de a única mulher ali existente já ter donos e portanto a António faltava-lhe a mão-de-obra para trabalhar. Resta Francisco, residente da secção B. Alto, bem constituído, apesar de as costas começarem a delinear o arco de quem está insistentemente curvado sobre as bancadas, cabelo escuro, rosto oval com barba por desfazer, olhos baços que escondem a alma que se adivinha inerte. Mudo de nascença, joga cartas que se vão espalhando pelas bancadas quase desertas e aborrecido com a monotonia dos gestos desaparece quase tão repentinamente como surge nas alturas menos esperadas. Acaba o jantar que havia começado a horas certas e o som que se ouve agora troar é o de formar filas para a chamada antes de mergulharem no âmago das celas onde hão-de estirar os corpos moídos de nada fazer. João, António, Francisco, Carla e Raul estão presentes e dirigem-se os cinco para o cubículo número sete no primeiro andar. O espaço, exíguo para cinco que na verdade são dois, acolhe-os para que durmam mais uma noite. Raul diz boa noite quatro vezes, mas a resposta vem apenas de João que os outros dormem já profundamente. A noite, aparentemente calma, vê-se sacudida pelo grito de João que acorda o guarda responsável por aquela ala e o caos instala-se. João grita por socorro, Raul, prostrado no chão, esvai-se em sangue escuro que em fios percorrem a cela até dela se sentirem livres. Raul está já sem vida, o corte da jugular fora cirurgicamente traçado e João, desesperado, gritava agarrado aos cabelos como se fosse enlouquecer. Sabia que estava inocente, mas como iria explicar este facto se para os demais dentro daquele espaço só estava ele e Raul. Em agitados balanços, agarrado aos joelhos questionava António e Francisco que lhe asseguravam não ter cometido o crime. E Carla? O que seria feito dessa que tão prontamente se apresentava quando o instinto se resumia a uma satisfação do mesmo nem que fosse a correr? Não sabiam dela. Procurou-a João estarrecido com a hipótese que se lhe abria. Chamou bem alto para dentro e ao fundo assomou o vulto feminino, lívido mas resoluto. João olhou de si para dentro de si, encarou Carla e não precisou perguntar. Ouviu baixinho as razões, baixou os olhos e cabisbaixo estendeu os pulsos que quase de imediato sentiram o frio do metal que os apertava. Acabava de ser preso dentro da prisão que já era a sua casa. Carla desaparecia para sempre de dentro de si. Excluía-a da sua vida como nunca pensara fazer com nenhum dos seus eus e em lágrimas, como quem acaba de perder um filho, rumou a uma segunda pena que havia de permitir que se esgotassem as possibilidades de plantação do solo que tanto gostava de manejar.


Cristina Tomé

14 Julho, 2009

Sono


Respiro fundo …
e de dentro desprendem-se angústias avulsas que bóiam quase inanimadas.
Volto a respirar…
e o ar que me inunda traz consigo a leveza que não importuna mas alivia a alma-ser.

Fecho os olhos…
e procuro o que resta de mim no dentro
que mais suave antecipa a calmaria que de tão transparente
anuncia a nudez impossível de esconder.

Durmo enfim…
e entorpecida deixo de respirar fundo.
Os olhos…
não voltam a abrir-se para a paz finalmente alcançada.




Cristina Tomé

11 Julho, 2009

K

A personagem desta história não tem nome, tratá-la-emos por Senhora K, à semelhança de Kafka quando se refere à sua personagem Joseph. A história de vida é simples: cresceu como todas as crianças, brincou como e com todas as crianças que diga-se eram duas ou três, e a pré-adolescência chegou sem aviso no despontar de duas borbulhas na face e no correr apressado do sangue que parecia jorrar das partes baixas da menina. Principiava assim uma etapa de vida que poderia ter sido vivida mais intensamente do que a própria personagem adivinharia. Com o passar do tempo começara a esboçar-se em K o desejo de abandonar a terra que a vira nascer. Os interesses da menina quase mulher estavam longe do sossego exacerbado que se respirava em Cominho. A aldeia, situada no mais profundo e rigoroso interior do país, estava quase deserta com a súbita imigração dos mais novos aquando de uma doença perigosa que se havia espalhado, não porque ela fosse exclusiva daquele espaço, mas porque efectivamente ali não havia sequer uma farmácia que vendesse o tão procurado antídoto. K sentia por isso que o destino a puxava para longe dali. Ora foi numa tarde soalheira em que o simples acto de respirar se tornara quase insuportável que K decidiu que dali a uma semana partiria para parte incerta. Começou a arrumar na mala apenas o indispensável e esperou com ânsia a segunda-feira que a havia de a levar à rodoviária. Nos dias antes da partida não havia quem a visse. Fechou-se em casa a fazer sabe-se lá o quê e a vizinha Paula começou a achar estranho tamanho isolamento da rapariga até porque não era disso. Teria acontecido, com certeza, alguma coisa grave que justificasse este desaparecimento súbito. Dona Paula, vizinha preocupada, com a curiosidade a revolver-lhe as entranhas, resolveu de mansinho bater à porta de K. De dentro apenas o ruído estridente da televisão que parecia ter o volume no máximo e de K nem sinal. Continuou a bater de forma insistente até que os nós dos dedos começaram a ficar avermelhados de tão doridos que estavam. Desistiu de chamar e caminhou no sentido dos ponteiros do relógio que a levaram à porta de trás da cozinha que estava destrancada. Soltou um grito abafado e curto ou não fosse K uma única letra e de fácil pronúncia e como não obteve qualquer resposta decidiu entrar sorrateiramente para enfim descobrir o que se passava. A adrenalina começava a tomar conta da Dona Paula e com um risinho baixo mas frenético começava a contorcer a face que se enrugava de forma sibilina. Pé ante pé, como se calçasse botinhas de lã, foi caminhando em direcção à sala que dava acesso à porta onde há pouco batera compulsivamente. A televisão estava de facto ligada num desses canais esotéricos. Dona Paula, distraída como era, esqueceu-se por momentos da verdadeira razão que a havia levado a invadir a casa de K e deixou-se cair pesadamente no sofá em frente ao aparelho. Os olhos, raiados de sangue, fixavam o apresentador do programa intitulado “Te levo ao Céu” e a boca foi-se abrindo sem permissão, bebendo as palavras do pastor que prometia curar todas as maleitas físicas e psicológicas que assombrassem a vida dos seus fiéis. Os gestos, a música e a voz que emanavam do televisor deixavam Dona Paula como que hipnotizada e sem aviso rodopiou no sofá deixando-se tombar no chão duro e empoeirado apenas coberto por uma passadeira velha de franjas. Da boca saia-lhe uma espuma cor-de-rosa e o olhar, revirado, encontrava agora o de K do outro lado da mesa que se encontrava ao centro da sala. Não percebeu de imediato o que estava a acontecer, continuava a ouvir o pastor agora aos berros como que possuído por uma força maior que o controlava e sem forças ainda sussurrou um qualquer ruído que fez estremecer levemente K que a encarou a muito custo, e esboçando um sorriso deixou fugir da boca um quase sumido bem-vinda.
Cristina Tomé

22 Maio, 2009

Chora língua chora!


27 Abril, 2009



De olhos bem abertos… castanho profundos… fixa um ponto qualquer no horizonte impreciso. Na face começa a esboçar-se um sorriso, primeiro ténue, depois cada vez mais definido, iluminando o mundo como se uma estrela se acendesse sem aviso. Sorriso confortante, enternecedor, apaziguador de qualquer dor sentida aquando da sua entrega à realidade. Enfim, surge apresentado ao mundo e aqui permanece… dependente ainda dos demais. Vê-lo dormitar e estremecer a cada pesadelo aguça a curiosidade sobre o conteúdo possivelmente estranho que se esboça a cada gesto súbito ou contorcer de face. A sensação fisicamente experimentada de dar vida a outra vida, tão perfeita, tão frágil, permanece indefinível, e os olhos naufragados em lágrimas seguram, acompanhando os braços trémulos, o ser que devagarinho nos aproximam da face agora irremediavelmente inundada, percorrendo avidamente todos os recantos de tão pequena criatura que nos fixa sem nos ver, mas que nos sente como parte integrante de si.

Cristina Tomé

20 Abril, 2009

Mar


Ao sabor da brisa
caminho com os pés mergulhados na areia dourada…

Embalo os sentidos que teimam em permanecer despertos
e divago interiormente para o elemento aquático que lentamente me absorve da realidade circundante.

Sinto molhados os cabelos,
a face impermeável recebe suavemente a água que por ela corre
até imergir completamente.

Silêncio quase absoluto
quebrado apenas por um leve rumor ao longe:
risos, palavras soltas…

Abro os olhos que ardem em contacto com o sal
e impedida de inspirar, degustar, cheirar
tacteio e observo o fundo transparente
que se me oferece como cama onde deleito a alma.


Cristina Tomé

26 Fevereiro, 2009

Desabafo (con) sentido

Em contacto directo com a folha de papel ainda virgem da tinta que a havia de fecundar, a pena ensaiava movimentos encantatórios cuja arte de sedução era evidente aos olhos até dos menos experientes nestas coisas da corte. Delgadinha, espaventava-se harmoniosamente como se da eficácia da dança da sedução dependesse toda uma série de riscos e rabiscos que tencionava deixar marcados na imensa brancura que à sua frente se lhe oferecia. Delicadamente, porque a experiência no amor é um posto, deixa-se pousar ao de leve na superfície macia e imaculada, desenhando as letras arqueadas e em estilo quase barroco. Ao ser tocada, a folha, entra numa espécie de êxtase sagrado, qual Santa Teresa de Ávila trespassada por uma seta de amor divino-celestial e paulatinamente sente o leve arranhar do aparo que se funde em si como se finalmente o inevitável acontecesse. Escrevinhada, sente agora a doçura da fecundação e os frutos gerados pelas mãos bailam ao sabor de uma infinitude de leituras inacabadas que de tão únicas deixam antever o prazer de quem por elas passa os olhos, ora brilhantes de satisfação, ora húmidos de emoção, ora raiadas de raiva quase herética, ora de indiferença provocada simplesmente pela incompreensão que sufoca. Que desgosto devem ter todos aqueles que se divorciam das letras e mergulham num mar tão triste e solitário… que desgosto não poder fazer amor com as palavras… que desgosto não partilhar uma vida inteira com a tal folha de papel branca, já não imaculada, mas fecundada por ideias e sentimentos… que desgosto fazer gala da ignorância que nos cega… que desgosto…



Cristina Tomé

09 Fevereiro, 2009

Dois Destinos


Costumava deixar que a vida passasse por ela na estrada. Com os pés assentes na linha branca e contínua levantava o polegar que exibia com face de súplica a quem passava a contígua e alta velocidade. A pressa de chegar a qualquer lado era visível nos olhos de Maria que teimava em dar a volta ao mundo pendurada num qualquer banco de automóvel de primeira ou última série. Desde os dez anos que acalentava este sonho e nem a idade, os pais e os amigos a demoveram de tal intento. Levantava-se de madrugada da estalagem onde tinha conseguido ficar hospedada por um preço irrisório, caminhava para a beira da estrada e levantava novamente o polegar. Antes que a boleia se concretizasse ia andando, fazia quilómetros de costas com os olhos fixos nos muitos carros que passavam e a ignoravam. Maria, rapariga solitária por opção e teimosa por herança tinha decidido principiar esta fase iniciática da sua vida há precisamente um ano atrás. Num jantar em família, por ocasião do aniversário do pai, anunciou que partiria no dia seguinte ao encontro de si mesma e desde essa altura que por aqui anda: um dia em lugares ermos, outro em cidades magníficas, outro ainda largada em planaltos cobertos de trigo seco que se curva ao sabor do vento. Se cumpriu o objectivo de se encontrar, ignora o fim da caminhada que parece serpentear, continuando rumo ao centro da terra de ninguém. E hoje, Domingo, se não falha a contagem irrisória dos dias, vagueia numa erma e estreita cidade sem nome. As ruas, empedradas e labirínticas, conduzem-na à muralha onde o sol queima a céu aberto e Maria, deslumbrada, olha o infinito como se nele desejasse penetrar rumo a sítio nenhum. Abre os braços na tentativa de o poder abarcar e de olhos fechados inala avidamente o cheiro verde que se desprende dos pinhais que rodeiam o espaço físico onde se encontra. Qual homem vitruviano, imóvel, rígida, presa ao chão pela gravidade, sente o seu corpo perfeitamente encaixado na totalidade do universo. É esta sensação de grandeza que explica o não abandono desta viagem interior, mas pouca gente, incluindo a família nem sempre disponível para alcançar pensamentos mais elevados, tem talento para aceitar de ânimo leve a decisão de partir mundo adentro sem data para regressar. De máquina fotográfica afastada, regista mais um momento marcante, pena que registe apenas o que é visível, esse que toda e qualquer pessoa alcança sem grande esforço de compreensão. A alma, essa que dizem ser roubada a cada click, afinal continua presa ao corpo, inabalável aos demais olhos. Maria recolhe os braços e concomitantemente a máquina. Baixa o campo de visão e regressa à realidade, partindo pelo mesmo caminho, pisando os seixos simetricamente encaixados no chão, pensando que dali partiria certamente para parte incerta. Descrever os lugares por onde passou Maria durante os anos seguintes seria talvez monótono, por isso vamos ao encontro de Maria, dez anos depois, à porta de casa dos pais prestes a tocar à campainha só interrompida pela Dona Gertrudes, mulher e vizinha do lado que com o mesmo sorriso terno de sempre se lhe dirigiu para a informar de que a sua família já não mora ali. Confusa, Maria não se apercebia da lividez que dela se apoderava. Não percebia a mensagem da vizinha que teimava agora em sacudi-la para que abandonasse o estado letárgico que dela se havia apoderado. Os olhos de Maria, brilhantes e turvos, perguntaram para onde se haviam mudado os pais e a voz sumida da mulher apenas sussurrou a necessidade que tiveram de partir em busca de si. Maria, consternada, desviou o olhar que até agora lhe prendia todas as atenções, voltou lentamente as costas à casa que julgava eternamente sua e partiu novamente para se perder, desta vez, definitivamente no mundo que a acolhera durante tanto tempo.

Cristina Tomé

01 Fevereiro, 2009

Há Dias...

Há dias….
Em que a penumbra nos aquece o espírito e nos devolve ao ventre materno onde flutuamos revigorados e imersos na protecção de um estranho líquido que nos alimenta…
Há dias…
Em que desejamos sair para o mundo e gritar que somos nós que comandamos o nosso destino…
Há dias…
Em que queremos simplesmente ser, assim, sem nada que perturbe a paz interior que consideramos sentir e que, aparentemente, como uma mão que pousa sobre a face, transmite toda a tranquilidade que julgamos existir no mundo!
Há dias… assim… em que a vida nos absorve e nos puxa para dentro de si mesma com o simples intuito de nos chamar a atenção para a sua existência… simples… concreta… mas pouco definida.
Cristina Tomé

19 Janeiro, 2009

Duplo Beijo


Encontravam-se dia sim, dia não, no mesmo hotel de sempre. A hora era marcada ao primeiro telefonema da manhã quando ainda meio ensonado, da casa de banho, sussurrava baixinho para que a mulher com que se deitava há quase 15 anos não ouvisse o combinado para o fim da tarde. Fazia hoje precisamente três anos que Pedro mantinha esta vida paralela cheia de secretismo e prazer e cada vez que se levantava do sono pesado de todas as noites, esboçava o primeiro sorriso ao ouvir a voz melíflua do outro lado da linha. Assim que terminava o telefonema estava pronto para encarar o dia, passava levemente um pouco de água fria pela cara, pegava na máquina de barbear que lhe tinha sido oferecida por Rita e começava a desfazer a barba acumulada dos dias anteriores, lavava os dentes e saía para o quarto onde com algum cuidado se vestia. Rita, meio a dormir, bocejava, dava pela sua presença e esticava os braços a pedir o beijo matinal. Pedro abeirava-se da cama, e envolvia-a num abraço pouco comum para quem tem outro grande amor, deixando cair ao ouvido um «bom dia». Descia para a cozinha, comia uma torrada que empurrava com um copo de leite fresco e saía para a vida lá fora, ansiando apenas pelo fim da tarde. As horas custavam a passar, ainda assim, fazia um grande esforço de concentração na leitura que fazia do processo que tinha em mãos, afinal a vida do cliente dependia da sua competência e a consciência desse facto obrigava-o a delinear estratégias de defesa. A tarde corria calma e abafada. As persianas do escritório, semiabertas, davam para a rua que Pedro iria atravessar não tarda e era só nisso que pensava… percorria com o pensamento os momentos mais marcantes dos encontros anteriores, sentia ao ouvido a respiração daquela que o enchia de felicidade, olhava para as mãos e voltava a percorrer cada linha daquele corpo inebriante, enfim…. Preso neste enleio, olhou para o relógio que dava as 18 horas. Um sorriso atravessou-lhe a face como se a alegria contida brotasse finalmente. Agarrou o blusão que tinha depositado em cima do sofá de couro preto, passou pela secretária num ápice e tartamudeou em jeito de despedida. Saiu do prédio, entrou no carro e largou ao sabor do vento para o tão esperado encontro. Eram rigorosamente 18 e 30 quando chegou ao lugar combinado. Estacionou o carro na garagem, longe de olhos indiscretos, e subiu para o quarto onde o aguardava a mulher dos seus sonhos. Assim que abriu a porta deparou-se com uma visão que lhe ofuscou os sentidos. Joana estava à sua espera, deitada sobre a cama, meia coberta pelos lençóis de cetim condicentes com a sua pele morena bronzeada pelo sol e os cabelos negros espalhados pela almofada disposta ao acaso sobre o leito. Pedro sentiu por momentos um friozinho percorrer-lhe todo o corpo mas entrou lentamente e sem articular palavra dirigiu-se à borda da cama, como fazia de manhã com a Rita, sentou-se e olhou extasiado o corpo que se lhe oferecia sem qualquer tipo de pudor. Mergulhou a mão por debaixo do lençol, percorreu a pele ruborescida e num único fôlego beijou-a arrebatadoramente. Era já noite quando se despediu da mulher que fora sua por instantes, atirou-lhe um «até depois de amanhã» e saiu rumo a casa.
Rita esperava-o ansiosamente… estava mais bonita do que o costume. O cabelo liso, retorcido nas pontas, contornava-lhe o rosto oval e o batom rosa clarinho salientava-lhe os lábios naturalmente belos. Esperava por ele todas as noites, sentada num cadeirão velho forrado de veludo vermelho, e assim que ouvia a porta bater, levantava-se e caía-lhe nos braços como se já não o visse há séculos. Pedro olhava-a enternecido, beijava-a carinhosamente e dizia-lhe que tinha sentido saudades suas e os dois saboreavam o jantar delicadamente preparado para no momento seguinte se amarem como se fosse a primeira vez, pelo menos era assim que Rita o sentia. Pedro, habituado que estava ao corpo da mulher, nada de novo tinha a descobrir. Sabia-lhe os gostos, o cheiro, o movimento exacto que a fazia transbordar de prazer… enfim… sabia de cor cada pedacinho de Rita. A rotina diária dava-lhe segurança e amar a mulher que era sua, pertencia à rotina diária, cumprida de forma mecânica, jamais posta em causa apesar do enorme coração de Pedro. Sem culpa, desempenhava o papel do marido que ama a mulher acima de qualquer suspeita e sem pensar na morena de cabelos longos e negros que ficara prostrada na cama do quarto de hotel de onde saíra há pouco, perdia-se nos braços de Rita completamente inebriado pelo odor que dela se desprendia. A serenidade que encontrava ali jamais a encontraria noutro corpo e era talvez por isso que mantinha uma vida dupla sem qualquer tipo de angústia. Amava, amava duas mulheres completamente diferentes e precisava das duas para se sentir completo, feliz até. Jurara a si próprio que uma não excluiria a outra e o que é facto é que quando se envolvia com cada uma delas se entregava de forma completa, de corpo e alma e naquele momento não traía nenhuma.
Na manhã seguinte saiu cedo de casa, do quarto dirigiu-se ao automóvel que guiou rumo ao escritório. A audiência estava marcada para as nove horas e tinha combinado com o cliente quinze minutos antes para acertarem os últimos detalhes. Vestiu a toga negra que o cobria quase na totalidade e ocupou o seu lugar em frente à cadeira que haveria de amparar o juiz. O caso que defendia era inabitual: o cliente era acusado de homicídio premeditado. Casara muito novo com uma mulher extremamente bela e esse facto levou-o à loucura. Era possessivo, desconfiado e a obsessão levou-o a pensar que não era comum e muito menos normal que uma mulher como aquela se tivesse casado com um homem como ele, bexiguento e anafado. Decidiu por isso que se aquela mulher não servia para ele não serviria para mais ninguém e decidiu paulatina e morosamente servir-lhe de repasto diário uma pequena dose de cianeto. Quando uma vizinha começou a reparar no estado em que se encontrava a rapariga já era tarde demais, já a polícia estava à porta e os paramédicos recolhiam o corpo franzino que jazia. E era este o caso que Pedro tinha em mãos. A sessão foi demorada, Pedro discursava de forma inabalável, argumentando com o desconhecimento que o seu cliente tinha dos reais efeitos secundários de tal composto tóxico; com a loucura que se tinha apossado de si e com a já esperada inimputabilidade relativa do seu cliente. Condenar-se-ia uma pessoa mentalmente doente e sem noção da gravidade dos seus actos? O Juiz não se compadeceu ante o indivíduo que permanecia estático e pasmado, talvez até surpreendido pela argumentação, e sem demoras proferiu a sentença que o atirou para um estabelecimento prisional de alta segurança. Pedro estava estarrecido, mas só por fora, por dentro invadia-o uma alegria incompatível com a ética que era obrigado a exibir. Aceitara o caso por mera imposição dos sócios com quem trabalhava, no fundo detestava casos que sabia não terem solução por isso perder este não era nada com que já não contasse à partida. Regressou a casa mais leve, com a sensação de dever (in)cumprido.
Hoje era ainda dia não, amanhã de manhã voltaria a fazer a chamada para o número gravado no telemóvel com um nome masculino, voltaria a ansiar pelo fim da tarde, voltaria a cumprir-se o ritual de todos os dias sim. Chegou a casa cansado da tarde no tribunal, Rita esperava-o cumprindo também ela a rotina e o beijo desferido ao acaso soou nela como um alarme. Sentia Pedro abatido, diferente do marido atencioso que costumava ser, mas não se preocupou, devia ser só cansaço. Jantaram em absoluto silêncio e sem que nada o fizesse prever Pedro levantou-se, caminhou em direcção ao jardim e quebrou a única regra que lhe permitia ter uma vida sossegada. Pegou no telemóvel, procurou o número proibido e iniciou a chamada. Do outro lado, a voz surgiu com um tom de surpresa. Pedro queria um encontro, precisava de um encontro ainda essa noite. Não sabia a razão, também não era importante, sabia apenas que por momentos desejava aquele corpo que o embalava e lhe fazia esquecer que o mundo girava continuamente. Regressou à sala onde Rita ainda jantava, voltou a sentar-se à mesa como se dela nunca tivesse saído e observava a mulher com compaixão. Adiantou-lhe que tinha de sair mas que voltava a tempo de lhe dar o beijo da noite e num tom provocatório ordenou-lhe que não se atrevesse a dormir antes que ele voltasse. Saiu logo após a sobremesa, espraiou-se no banco do carro e arrancou a toda a velocidade para o centro da cidade onde ficava situado o hotel do costume. Estacionou, subiu as escadas, rodou a maçaneta da porta à espera de vislumbrar a aguarela do costume, mas paralisou ante o cenário envolvente. A mulher que estava deitada na cama não era a do costume, era… Rita, que levantou de leve a cabeça, fixou os olhos verdes nos castanhos de Pedro, disse-lhe que havia surgido um imprevisto e que a rapariga habitual não estava disponível, tinha resolvido atendê-lo ela. Entrou definitivamente no quarto, de costas fechou atrás de si a porta, abeirou-se da cama como fazia sempre e a mão penetrou nos lençóis de seda que contrastavam com a pele de Rita, passeou-a pelo corpo que não conhecia, entregando-se final e completamente nos braços daquela que prometera não adormecer sem o beijo da noite.

Cristina Tomé

03 Janeiro, 2009

Édipo (II)

Era domingo, a mãe, depois do beijo matinal, saíra bem cedo e o pai ficara no jardim, deitado na mais que sua chaise longue agarrado a um clássico que andava a reler há já algum tempo. Alfredo tinha-se levantado e tomava o pequeno-almoço na cozinha virada para o jardim. Observava o pai… que tranquilo assistia impavidamente ao desenrolar das peripécias de Madame Bovary sem jamais sonhar o que estaria para acontecer naquele dia. Alfredo tinha decidido e nada mais havia que pudesse contrariar a certeza que finalmente nascia dentro de si. Acabou serenamente o resto do chá e saiu de si para o exterior banhado pelo sol que despontava dos primeiros raios do dia. Ocupou a cadeira de ferro, olhou para o pai que imerso na leitura nem deu pela sua presença e deixou que as palavras jorrassem ao sabor da brisa que agora se levantava em seu favor. Disse-lhe o que sentia e o que não sentia, acusou-o da ausência, acusou-o da falta de afectos, acusou-o da falta de imparcialidade nos julgamentos… enfim, acusou-o de ter sido tudo menos aquilo que se esperaria de um pai e era tão pouco o que ele tinha pedido durante aqueles vinte e cinco anos de permanência naquela casa… apenas um pai. Um pai que não existiu a não ser na sua mente, um hipotético pai que ainda assim se foi afastando à medida que os anos foram passando e agora, só agora conseguia ver claramente aquilo que tinha tentado ocultar com desculpas diárias, incoerentes. Chegara ao limite, não aguentava mais ter de guardar para si o peso que sentia. E o pai? O que pensava o pai de todo este discurso meticulosamente preparado? Nada. Não pensava rigorosamente nada. Levantou vagarosamente os olhos do livro e olhando para Alfredo disse apenas que Emma estava grávida. Grávida do marido que já não amava. Grávida e farta da vida que escolhera ao lado daquele que pensara ser o seu grande amor. Alfredo estava atónito. Lera Flaubert muito jovem, mas lembrava-se claramente das personagens agora evocadas pelo pai. Num relance apercebeu-se que talvez o pai estivesse a querer dizer-lhe alguma coisa que ainda não conseguira destrinçar. O silêncio que se instalou entre os dois foi atroz. Não discutiram e foi precisamente este facto que mais magoou Alfredo. Desde cedo que se habituara ao silêncio perpetuado pelo pai, mas agora, face às evidências, confrontado directamente com as acusações do filho, esperava outra reacção. Alfredo porém não desistiu, não hoje que prometera a si mesmo mudar definitivamente o rumo da sua vida. Encarou o pai com displicência, pedindo-lhe o favor de ser claro evitando jogos metafóricos. Queria que aquela conversa derradeira dissipasse todos os mal entendidos acumulados desde sempre e, sem aviso, disse-lhe num tom seguro que a melhor solução para ambos era talvez um deles abandonar a casa onde agora se encontravam. O pai soltou uma gargalhada estridente ao mesmo tempo que acenava com a cabeça em sinal de reprovação. Jamais lhe passaria pela cabeça deixar o conforto a que se habituara e afinal não era ele que se sentia incomodado com a presença do filho, logo não tinha quaisquer razões para sair. Alfredo sentia crescer-lhe no peito uma dor aguda que o impedia de respirar, a face, desfigurada, denunciava o ódio que não conseguia disfarçar por muito mais tempo. A mãe estava quase a regressar e ele queria resolver o assunto antes que isso acontecesse. Não queria que ela desconfiasse sequer do motivo que o levava a querer o pai fora de casa, não o verdadeiro, porque o outro era por ela conhecido, apesar de nunca se ter manifestado abertamente sobre ele. Percebendo que as hipóteses de vencer o pai diminuíam, levantou-se da cadeira de ferro que havia ocupado, e saiu directamente para o seu quarto onde em silêncio atirou para cima da cama uma mala que a mãe lhe tinha oferecido no aniversário passado. Consternado, abriu o guarda-vestidos, amontoou a roupa dentro da mala e saiu. Saiu para não mais voltar, pelo menos era essa a sua convicção. Nos dias que se seguiram não deu notícias. A mãe, inquieta, telefonava várias vezes, mas o polegar de Alfredo fazia sempre o mesmo movimento quando no visor surgia «mãe» e as lágrimas corriam tantas vezes quantas as tentativas de contacto. Se ela soubesse o verdadeiro motivo da sua saída. Se ela soubesse a preferência velada que tinha por ela e a vontade que tinha de se livrar do seu pai. Não conseguia evitar sentir este amor enorme e ao mesmo tempo repulsa. Sabia à partida que o seu caso não tinha solução por isso havia decidido que nunca mais voltaria àquela casa. Quanto à mãe, precisava de pensar… de gerir calmamente os sentimentos que o inundavam. À pergunta que o assolava constantemente, respondia interiormente com um «não sei que fazer, mas vamos dar tempo ao tempo» e era nesta angústia que adormecia todas as noites. De manhã, quando acordava, a inquietação voltava ainda com mais força e era nesta vida, intermitente, que passara os três meses mais desconcertantes da sua vida. E ali estava agora, tão ou mais vencido do que antes, a relembrar episodicamente aquilo que mais queria esquecer. Entreabriu os olhos, baixou-os para a fotografia e as saudades que sentia eram agora maiores do que todas as promessas que tinha feito a si mesmo. Mas como podia resolver o imenso conflito que o queimava por dentro. Não podia chegar ao pé de quem mais amava e dizer-lhe isto mesmo. Era contra natura, era pérfido, era, acima de tudo, doloroso. A reacção não ia decerto ser como seria se ela fosse uma simples mulher do mundo… uma qualquer mulher do mundo. Não era de facto e essa verdade aturdia-lhe os sentidos, impedindo-o de tomar uma resolução definitiva.
Vencido pelas evidências e pela realidade que o esmagava decidiu por fim ao sofrimento gritante que o dilacerava. Desta vez não saiu em silêncio, não precisava, estava sozinho. Também não atirou a mala para cima da cama, pelo menos não com a violência da primeira ocasião… e desta vez…a mãe não telefonou inquieta com o seu desaparecimento súbito. Razões? Apenas uma, resumida numa longa e perturbante carta deixada ao acaso em cima do tapete da casa onde jurou nunca mais voltar.
Cristina Tomé

30 Dezembro, 2008

Édipo


Alfredo chegava a casa sempre depois das 19 horas. O sofá que tinha na sala, ainda que velho e corroído pelo tempo, aconchegava-o de forma fetal, fazendo-o regressar ao útero da mãe de quem tinha imensas saudades. A lembrança que o assaltava era sempre envolta numa imensa ternura: o sorriso rasgado mas discreto, os cabelos negros e lisos que lhe faziam cócegas nas bochechas sempre que a mãe se abeirava dele para lhe pousar um beijo leve sobre a testa, os olhos, redondos e brilhantes, que ora o fixavam seriamente quando resolvia fazer disparates… ora o envolviam numa arrebatadora manifestação de amor maternal, pedindo em troca apenas um carinho que recebia e arrecadava como algo puro e valioso. O sofá era, sem dúvida, uma verdadeira máquina do tempo, sempre a girar e Alfredo agarrava-se com quantas forças tinha para não sair projectado de encontro à parede que, do outro lado da sala, se afigurava ameaçadora. Era deitado nele que pensava em toda a sua existência - nas pessoas mais importantes, nos lugares mais importantes, na vida…essa inquestionavelmente importante. A noite ia já avançada e Alfredo, perdido nos meandros mais profundos do seu pensamento, sentia agora uma dor no estômago que o lembrava de que talvez devesse comer. Levantou-se preguiçosamente do sofá onde deixou uma covinha do peso do corpo e dirigiu-se à cozinha onde improvisou uma refeição rápida que abafasse o ruído que dele saía. Comeu ávida e compulsivamente a sandes de cenoura e tragou de um só golo o sumo de maracujá fresquinho. Lançou o olhar para o sofá e apesar da tentação, resistiu estoicamente. O cuco saiu do velho relógio pendurado na sala e anunciou as 22 horas. Olhou em redor, a sala estava agora mais escura e a pouca luz vinda da rua morria no chão como se mergulhasse nas tábuas do soalho que, cobertas de pó reluziam palidamente à espera da senhora Joana que esta semana havia faltado por motivos pessoais. Alfredo, resignado, impotente, estranhava a calma que se havia apossado de si, mas intuitivamente sabia que aquele estado de apatia teria de ser forçosamente expulso para dar lugar ao Alfredo de há 3 meses atrás, vivo, esfuziante, ainda que lacónico. Voltou a deitar os olhos pela sala, desta vez à procura de algo para fazer. O marasmo em que se tornara a sua vida irritava-o ao ponto de ter feito uma lista de afazeres para situações de emergência como esta. Dirigiu-se à mesa que estava plantada no meio da sala, abriu a gaveta lateral e tirou o rol que tinha esboçado há muito, prendendo a atenção em três palavras, sublinhadas a vermelho – álbum de fotografias. De imediato sentiu um baque que lhe atordoou os sentidos e quase mecanicamente dirigiu o seu pensamento para a última gaveta da cómoda, atafulhada de velhos retratos de família que pediam encarecidamente ordem, mas faltava a coragem, a paciência, a vontade… Decidido, deitou mãos à obra. Num abraço recolheu tudo o que estava solto, o cheiro a mofo fê-lo espirrar de forma violenta e do braçado saltou a fotografia… aquela fotografia, não tão antiga como as demais, mas atrozmente recente. Inclinou-se a custo para com a mão que tinha livre a apanhar do chão…e em simultâneo saltavam-lhe dos olhos gotículas que teimava limpar com a mão que não tinha livre. À medida que se foi erguendo, reparou mais atentamente e um mar de novas lembranças assaltou-lhe a alma. O peso das lágrimas, agora descontroladas, fizeram com que deslizasse para o chão, deixando cair tudo aquilo que tinha abraçado e na mão branca e trémula jazia a causa de tamanha prostração. Fixou o olhar turvado na imagem esboçando um ténue sorriso, a mão contrária passeou demoradamente na face do vulto fotografado e sem aviso rumou à boca de Alfredo que soltou um quase beijo triste. Estava confuso, afinal agia como se a pessoa ali plasmada já não existisse e a esperança de um reencontro começou a delinear-se na sua mente. Recostou-se à cama, dobrou os joelhos contra o peito e imaginou como seria se pudesse voltar atrás, há 3 meses atrás mais precisamente. Os olhos iam-se fechando à medida que o pensamento acelerava… regressou a casa dos pais de onde tinha saído de forma intempestiva e respirou fundo para que o recordado não lhe fosse tão duro como o realmente vivenciado.


(Continua...)


Cristina Tomé

15 Novembro, 2008

WAR



Gostava de passar horas a fio sentada naquele banco fofo esbranquiçado, rodeada de quadros por todo lado. O silêncio tão característico inundava-a de uma tranquilidade que lhe acariciava o espírito. O tempo escoava as emoções contidas para dentro de cada quadro ali exposto e Margarida absorvia o interior de cada personagem representada. Rodava devagarinho, observava cada imagem com uma atenção devoradora, pasmava diante de todas sem conseguir articular ideias ou sensações que apenas exteriorizava através do olhar que ora brilhava ora turvava de comoção. Aquela sala fazia parte de si, da sua rotina diária, das suas vivências, do seu mundo e era ali que passava as últimas horas do dia antes de recolher a casa que ficava no outro extremo da cidade. Era jornalista, trabalhava num desses jornais que ganham a vida a martirizar a dos outros sem qualquer tipo de complacência e a passagem diária pela galeria era talvez uma forma de exorcizar a culpa que sentia por ter de invadir assim a privacidade alheia. Foi num desses fins de tarde, a uma sexta-feira, que a passagem pelo seu local de eleição lhe trouxe uma surpresa inesperada. Chegou como sempre por volta das 19 horas, cumprimentou amavelmente o Senhor que permanecia eternamente sentado numa espécie de guiché anterior à sala principal e entrou em direcção ao seu banco branco e fofo. Acomodou-se e iniciou o processo de reconhecimento dos quadros que ocupavam generosamente as paredes brancas que a envolviam. Percorreu cada tela e estagnou o olhar numa impressionantemente diferente. Não quis saber do criador, deteve-se apenas nas letras que ocupavam a negrito um pequeno papel que permanecia no lado inferior direito – War – e o que se seguiu transportou-a para um mundo esquecido há muito. Completamente estarrecida, esfregou os olhos e um medo apoderou-se dela de forma inexplicável. Via-se menina, de bandós, envergando um vestidinho verde-escuro de flanela às florinhas e quase a roçar o chão, nos pés, umas meias pequeninas e uns sapatos redondos que faziam o pé ainda mais miúdo. Levantou os olhos para o espaço circundante, a casa onde se encontrava era a da sua infância: espaçosa, alta, imensa… Percorreu-a como se quisesse chegar à divisão que mais a aterrorizava e quando deu por si achou-se perto da velha cadeira de baloiço que rangia sempre que a velha mãe se nela sentava para contar as histórias que fizeram desde sempre parte da sua vivência. Sentou-se no chão, em frente à ausente senhora e escutou… A história que agora ouvia era a mesma de sempre e o terror que experimentou nesse momento fê-la permanecer estática como se qualquer movimento brusco lhe provocasse uma dor lancinante. A velha senhora iniciava a leitura demarcando vocalmente o título, como se ela o não soubesse já de cor, e, mecanicamente, movia os lábios em consonância com os da mãe que fazia questão de ouvir cada palavra perfeitamente soletrada. Passavam horas intermináveis sem que Margarida pudesse mover um único membro e a dormência apoderava-se de todo o corpo menos dos lábios, porque esses continuavam a largar dolorosos sons até que a história terminasse. O castigo que sofria de tempos a tempos tinha origem em pequenas travessuras que fazia por prazer: adorava subir ao telhado da casa e ficar um dia inteiro sem que ninguém a encontrasse; sujava a roupa de domingo se sabia que o senhor prior vinha dar a bênção, enfim, nada de tão grave que merecesse tão árduo castigo, mas a mãe, exigente e austera, não lhe perdoava as traquinices, por isso Margarida sabia de antemão o que a esperava. Terminada a leitura em uníssono, recolhia ao seu quarto onde permanecia o resto do dia, agarrada à travesseira da cama para abafar as lágrimas e os soluços que, desobedientes, saltitavam de quando em quando.
Uma mão no ombro fê-la despertar. O senhor do guiché acordava-a do transe que se tinha apoderado dela por tempo indefinido. A sala estava deserta, as únicas luzes acesas àquela hora eram as que alumiavam individualmente os quadros expostos. Margarida estava confusa, pediu desculpa e preparou-se para sair. Já perto da porta lançou um olhar para o quadro que tanto a angustiara e percebeu que jamais voltaria àquele espaço. Muda, desapareceu por entre a escuridão da noite rumo à casa que não consentia livros que espelhassem o medo.
Cristina Tomé