
Batia o sino as seis horas de uma fria e soturna manhã de Dezembro. A paisagem que envolvia a prisão de alta segurança era igual a si mesma, não só descampada porque ao longe se avistavam duas árvores raquíticas assentes numa relva amarelada da geada que naturalmente caia naquele momento. De um lado, uma espécie de guarida amontoava dentro de si entulho com aspecto envelhecido, do outro, uma estrutura em ferro oxidado, testemunha de um qualquer empreendimento nunca acabado. Ao centro, na horizontal, estendia-se o tal edifício penitenciário, caiado de branco sujo, ornamentado com grades em cada uma das janelas que se enfileiravam meticulosamente em cada andar por onde estavam distribuídas. O portão, largo e verde, contrastava com o resto do espaço e abria-se repetidamente para que entrassem e saíssem todos aqueles que asseguravam a pseudo vivência de uns e a sobrevivência de outros: talhantes conduziam as suas carrinhas e descarregavam metades inteiras de porcos ainda a escorrer o pouco sangue que restava, galinhas aos molhos, presas pela cabeça num gancho eram atiradas para dentro do caldeiro sujo que vinha da cozinha; o leiteiro entrava a seguir para depositar os pacotes de leite magro e aguado, seguindo-se o homem da fruta e dos legumes. Magro, escanzelado, mal podia com os caixotes que tirava da carripana com arca frigorífica sua pertença há tanto tempo que nem ele sabia quanto. O pátio era mais para dentro, longe do portão que dava acesso a uma liberdade que tão cedo não sorria à maioria. Comprido e naturalmente estreito, estava dividido em quatro partes desiguais, espelhando os seres que as frequentavam. Na secção designada por A, repleta de velhas máquinas de musculação, podiam vislumbrar-se as bestas de carga que com o suor a cortar o frio sentido largavam um bafo quente que em contacto com o exterior se transformava em fumo esbranquiçado; na secção B um campo de basquete, imperceptivelmente marcado, cujas tabelas, esburacadas e já sem rede, estoicamente se aguentavam em pé para que nelas pudesse, mais uma vez, entrar a bola lançada das mãos negras e ossudas do jogador por imposição do destino que lhe pregou uma partida. A terceira secção, por ordem de ideias a C, era ocupada por umas bancadas construídas para o efeito e ali permaneciam, impávidos e absortos, todos os avessos ao esforço físico. Fumavam, conversavam, jogavam cartas quando o espaço o permitia e urdiam planos de evasão à partida falhados. A última secção era forrada com terra escura onde se semeavam, a cada estação, as respectivas flores. Povoada de bolbos de lírios que brotavam espontaneamente com o frio, começava a adivinhar-se o aroma que encheria o ar nos próximos tempos, suavizando a realidade crua que se sentia mesmo do lado de fora. Trabalhavam a terra para depois se limitarem a uma espera angustiante os sensíveis, quase castos e só hóspedes porque invariavelmente enganados e apanhados numa cilada para a qual não estavam preparados. São agora dezasseis horas e troa o alarme interno que obriga ao recolher obrigatório. Abandonada cada uma das secções, encaminham-se os transeuntes para a porta que os há-de conduzir ao refeitório onde o barulho vai crescendo com urros de bocas cheias que vomitam insultos e olhos raivosos que fixam sem pestanejar alguém que se pretende intimidar. João, António, Francisco e Carla coabitam este espaço e acabada a refeição recolhem à cela que os acolhe, todos os dias, por tempo indefinido. Estranho facto este de uma mulher habitar o que até agora parecia ser um espaço estritamente masculino, mas o que é certo é que ela coabita e partilha dolorosamente este ambiente, sobrevivendo com uma dificuldade estóica de quem não desiste de si. Com o olhar pouco profundo, acastanhado, observa com cuidado tudo o que a rodeia. Sabe que um dos segredos para passar despercebida é não olhar directamente o outro, por isso, anda quase sempre cabisbaixa, sorrindo tenuemente apenas para aqueles com quem mantém uma relação secreta. Num leve piscar de olho, Carla manifesta a seu apetite sexual e no minuto que se segue, roçando-se naquele negro de músculos definidos, sacia, virada contra a parede do vão da escada que dá para a cozinha, a obsessão que a deixa descontrolada quando dela se apodera. Findo o acto, encaminha-se para a cela como se nada tivesse acontecido. O único resquício adivinha-se no brilho do olhar que deixa cair uma lágrima que não chega a rolar até ao queixo onde a barba começa a despontar. Triste vida a de Carla, neutra por assim dizer já que não pertence a nenhuma secção, mas está presa entre as três por três amores exigentes e sedentos. João, secção C, empresário de comércio justo, sensível, pele clara, olhos castanhos que se diluem no cabelo negro. Bipolar, homem de extremos, homem difícil e estranho. Ao entardecer, plantava os lírios com tanta dedicação que as suas mãos ao acariciar a terra provocavam estremecimentos em Raul, companheiro de cela. António raramente aparecia, só nos casos mais críticos deambulava por entre as máquinas da secção A. Rude, fora preso por tráfico de mulheres. Machão típico, daqueles que friamente trata o sexo oposto como aquilo que ele é: mercadoria de segunda, confeccionada para ser usada até que se gaste e se descarte. A sua parca aparição dever-se-á talvez ao facto de a única mulher ali existente já ter donos e portanto a António faltava-lhe a mão-de-obra para trabalhar. Resta Francisco, residente da secção B. Alto, bem constituído, apesar de as costas começarem a delinear o arco de quem está insistentemente curvado sobre as bancadas, cabelo escuro, rosto oval com barba por desfazer, olhos baços que escondem a alma que se adivinha inerte. Mudo de nascença, joga cartas que se vão espalhando pelas bancadas quase desertas e aborrecido com a monotonia dos gestos desaparece quase tão repentinamente como surge nas alturas menos esperadas. Acaba o jantar que havia começado a horas certas e o som que se ouve agora troar é o de formar filas para a chamada antes de mergulharem no âmago das celas onde hão-de estirar os corpos moídos de nada fazer. João, António, Francisco, Carla e Raul estão presentes e dirigem-se os cinco para o cubículo número sete no primeiro andar. O espaço, exíguo para cinco que na verdade são dois, acolhe-os para que durmam mais uma noite. Raul diz boa noite quatro vezes, mas a resposta vem apenas de João que os outros dormem já profundamente. A noite, aparentemente calma, vê-se sacudida pelo grito de João que acorda o guarda responsável por aquela ala e o caos instala-se. João grita por socorro, Raul, prostrado no chão, esvai-se em sangue escuro que em fios percorrem a cela até dela se sentirem livres. Raul está já sem vida, o corte da jugular fora cirurgicamente traçado e João, desesperado, gritava agarrado aos cabelos como se fosse enlouquecer. Sabia que estava inocente, mas como iria explicar este facto se para os demais dentro daquele espaço só estava ele e Raul. Em agitados balanços, agarrado aos joelhos questionava António e Francisco que lhe asseguravam não ter cometido o crime. E Carla? O que seria feito dessa que tão prontamente se apresentava quando o instinto se resumia a uma satisfação do mesmo nem que fosse a correr? Não sabiam dela. Procurou-a João estarrecido com a hipótese que se lhe abria. Chamou bem alto para dentro e ao fundo assomou o vulto feminino, lívido mas resoluto. João olhou de si para dentro de si, encarou Carla e não precisou perguntar. Ouviu baixinho as razões, baixou os olhos e cabisbaixo estendeu os pulsos que quase de imediato sentiram o frio do metal que os apertava. Acabava de ser preso dentro da prisão que já era a sua casa. Carla desaparecia para sempre de dentro de si. Excluía-a da sua vida como nunca pensara fazer com nenhum dos seus eus e em lágrimas, como quem acaba de perder um filho, rumou a uma segunda pena que havia de permitir que se esgotassem as possibilidades de plantação do solo que tanto gostava de manejar.
Cristina Tomé